
O país que queremos começar no espelho
Há uma discussão que o Brasil parece nunca conseguir abandonar: quem é o culpado pelos problemas do país? Para muitos, a resposta está sempre em Brasília. Para outros, está no partido adversário, no presidente de plantão ou naqueles que pensam diferente. A política ocupa espaço legítimo na vida nacional, mas existe uma questão anterior, mais simples e, talvez por isso mesmo, mais difícil: que tipo de cidadão estamos sendo todos os dias?
Pouco importa se somos Lula ou Bolsonaro quando o assunto é aquilo que acontece dentro da nossa própria casa, na nossa rua, no nosso trabalho e nas nossas relações. Nenhum presidente pode entrar pela nossa porta e nos ensinar a respeitar o próximo, cuidar do espaço público, ouvir nossos pais, educar nossos filhos ou estender a mão a alguém que precisa.
É contraditório reclamar da sujeira das ruas e, ao mesmo tempo, jogar lixo no chão. Condenar a corrupção e permanecer em silêncio quando recebemos dinheiro a mais. Exigir respeito das autoridades, mas tratar com desprezo aquele que está ao nosso lado. Cobrar um país mais humano enquanto, muitas vezes, somos incapazes de dedicar alguns minutos para ouvir alguém que precisa apenas de atenção.
A política importa. As decisões dos governos têm consequências concretas na vida da população e devem ser acompanhadas, fiscalizadas e debatidas. Democracia exige participação, cobrança e responsabilidade. Mas nenhuma sociedade se transforma apenas por meio das decisões tomadas nos palácios, nos parlamentos ou nas urnas.
Um país também é construído nas pequenas escolhas.
Naquele lixo que decidimos não jogar na rua. No carrinho do supermercado que devolvemos ao lugar. No troco que entregamos quando percebemos que recebemos além do devido. No idoso que ajudamos sem esperar uma fotografia. Na palavra respeitosa dirigida a alguém que pensa diferente. Na educação que oferecemos dentro de casa.
É muito fácil apontar para Brasília porque Brasília está longe. O espelho, porém, está perto demais.
Talvez essa seja uma das grandes contradições do nosso tempo: queremos mudanças coletivas sem aceitar que mudanças individuais também fazem parte da construção de uma sociedade melhor. Esperamos que políticos sejam honestos, servidores sejam responsáveis, autoridades sejam respeitosas e instituições funcionem corretamente. E devemos, sim, cobrar tudo isso. Mas também precisamos perguntar a nós mesmos se estamos praticando os mesmos valores que exigimos dos outros.
Daqui a dez anos, o presidente poderá ser outro. Os partidos poderão mudar, as prioridades nacionais poderão ser diferentes e novos personagens poderão ocupar os espaços de poder. Mas uma pergunta permanecerá: o que nós teremos mudado em nós mesmos?
Porque um país não é feito somente por quem governa. É feito por milhões de pessoas que, todos os dias, escolhem entre o egoísmo e a solidariedade, entre a indiferença e a empatia, entre a desonestidade conveniente e a integridade.
Antes de perguntar quando o Brasil vai mudar, talvez seja necessário perguntar quando nós decidiremos começar.
A transformação que cobramos das ruas, das instituições e de Brasília pode não estar tão distante quanto imaginamos. Talvez ela esteja esperando justamente no lugar que menos gostamos de encarar: diante do espelho.
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Ronaldo José
Como jornalista, minha paixão pela informação e comunicação moldou minha trajetória profissional. Dedico-me ardentemente a levar notícias de forma ágil e precisa, sem comprometer a imparcialidade.
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