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EDITORIAL:  

A IGREJA NÃO É CURRAL E O PÚLPITO NÃO É PALANQUE 

Há um pacto sujo, antigo e cada vez mais escancarado neste país: o da política que se ajoelha no altar não por fé, mas por voto. 

Há muitas ideias equivocadas com respeito à relação da igreja com a política, e é exatamente nessa confusão que os espertalhões prosperam. De um lado, os que pregam que cristão não deveria participar de política, como se política fosse assunto mundano demais para os santos. Essa omissão é conveniente para os corruptos. Do outro, os que acham que todo cristão que entra na política se corrompe, como se a fé fosse um atestado de fracasso público. As duas ideias são burrices úteis. 

Mas o pior está na outra ponta: os que acham que todo cristão é automaticamente um bom político, e os líderes inescrupulosos que transformaram a igreja num verdadeiro CURRAL ELEITORAL. 

Vamos chamar pelo nome: abuso. Abuso espiritual. Abuso moral. Estelionato eleitoral. 

É o político que só aparece na igreja em ano de eleição, de Bíblia nova embaixo do braço, decorando dois versículos para enganar o rebanho. É o candidato que negocia com pastor o lote de votos como se negociasse saco de cimento. É o líder religioso que troca o púlpito por palanque, que domestica a consciência dos seus liderados, que diz em quem devem votar como se fosse dono da fé alheia, que ameaça com inferno quem pensa diferente e promete céu para quem obedece o seu projeto de poder. 

Isso não é evangelho. É prostituição da fé. 

O cristão precisa parar de ser ingênuo. Os cristãos devem ser pessoas bem-informadas para não serem massa de manobra nas mãos dos espertalhões. Fé não anula inteligência. Pelo contrário, exige lucidez. Não se pode, em nome de Deus, entregar o voto a quem vive de mentira, a quem rouba, a quem defende abertamente a destruição da família, da vida, da honestidade, da justiça. 

Os cristãos não devem aprovar, com o seu voto, bandeiras que conspiram abertamente contra a fé cristã. Mas também não podem aprovar, com o seu voto, canalhas que usam o nome de Cristo em vão para se eleger e depois cospem nos próprios valores que juraram defender no altar. 

Entendam de uma vez por todas: A igreja não deve ser partidária, mas nunca pode ser apolítica. 

Igreja partidária é curral. Igreja apolítica é omissa. 

A igreja é a consciência do Estado. E consciência incomoda. Consciência não se vende por emenda parlamentar, por cargo na prefeitura, por foto com o deputado. Consciência não se cala por medo de perder convênio. 

O papel bíblico da igreja é claro e inegociável: Deve orar pelas autoridades constituídas. Deve honrar as autoridades constituídas. Deve pagar tributos às autoridades constituídas. 

Mas também – e principalmente – deve CONFRONTAR as autoridades constituídas sempre que elas se desviam de seu papel de promover o bem e coibir o mal. 

E, numa democracia, deve ter a coragem de MUDAR as autoridades constituídas quando elas perdem a capacidade de governar com integridade e eficiência. 

A igreja que se cala diante da corrupção para não perder benefício é cúmplice. O pastor que vende o rebanho em troca de poder é mercador do templo. E o político que usa o nome de Deus para enganar o povo vai prestar contas não só à Justiça dos homens, mas à Justiça de Deus. 

Chega de púlpito transformado em comitê. Chega de culto virando comício. Chega de crente sendo tratado como gado marcado para votar. 

A fé liberta. O curral prende. 

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